O Veredito de Al A’raf 7-157

Este versículo é o mais frequentemente citado como prova por aqueles que argumentam que o Mensageiro, o Profeta, pode legislar em matéria de religião. O versículo afirma a respeito dos Mensageiros:

“São aqueles que seguem o Mensageiro… o qual lhes recomenda o bem e que proíbe o ilícito” 

No entanto, quando analisado no contexto de todo o Alcorão (Alcorão 6-145 e outros versículos relacionados), torna-se claro, através da seguinte evidência, que a autoridade para “tornar lícito/ilícito” aqui não se refere a legislação independente, mas sim à transmissão e implementação da mensagem:

1. Mensageiro ou Mensagem?

No início do versículo, enfatiza-se que essa pessoa é “o Mensageiro que eles encontram escrito na Torá e no Evangelho”. Em outras palavras, o que o mensageiro declara halal ou haram já são normas presentes na revelação de Deus (o livro). O mensageiro declara o que Deus tornou halal dizendo “Isto é halal” e proíbe o que Deus tornou haram dizendo “Isto é haram”.

2. O Uso da Palavra “Proibir” no Alcorão

No Alcorão, por vezes, uma ação é atribuída não à pessoa que a realiza, mas àquele que a intermedia. Por exemplo, Deus descreve o Alcorão como:

“a palavra de um nobre mensageiro (Gabriel ou Muhammad, que a paz esteja sobre ele)” (Al-Haqqa 40).

Mas sabemos que o verdadeiro dono da palavra é Deus; o mensageiro é apenas aquele que a profere.

Da mesma forma, a “proibição” de um Mensageiro significa transmitir e implementar uma regra que Deus proibiu.

3. Contradição com o princípio “O julgamento pertence somente a Deus”

Se interpretarmos Alcorão 7-157 como “O Profeta pode declarar algo proibido independentemente de Deus”, então isso contradiz os seguintes versículos:

O julgamento somente pertence  a Deus. Alcorão 12-40

Ó Profeta! Por que proíbes o que Allah tornou lícito para ti? Alcorão 66-1

(Aqui, Allah intervém para impedir até mesmo os Mensageiros de declararem algo proibido para si mesmos).

4. Os Limites da Lista de “Halal e Haram”

O versículo Alcorão 6-145  ordena ao Mensageiro que diga:

“Não encontro nada proibido no que me foi revelado…” (e então lista apenas 4 coisas).

Se os Mensageiros tivessem autoridade para proibir algo além do que foi revelado, teriam que dizer: “Proíbo estas coisas além do que me foi revelado.”

No entanto, o versículo apenas define os limites do que é proibido pela revelação.

5. O Contexto de Maruf e Munkar

O mesmo versículo (Alcorão 7-157) afirma que os Mensageiros “ordenaram Maruf”.

Maruf significa “bom”, algo já conhecido pela sociedade e em conformidade com a razão e a revelação. O Mensageiro não inventa um novo “bem”, mas ordena o que Deus considerou bom. A questão de “Haram/Halal” reside precisamente nesse paralelo.

Considerações Finais

Somente o Ser Divino, o Senhor, pode revelar a religião e estabelecer decretos religiosos.

Mensageiros humanos não possuem tal autoridade.

Os mensageiros são responsáveis por transmitir a revelação e ser um exemplo de acordo com ela.

Este exemplo tem duas fontes: o Alcorão e as práticas continuamente transmitidas que têm sido vividas em conformidade com o Alcorão.

(Por exemplo, orações que incluem ficar em pé, inclinar-se, prostrar-se, suplicar, recitar, etc., estão incluídas nas práticas mutawatir.

As práticas mutawatir não devem ser equiparadas a narrações duvidosas e presunçosas.

As práticas mutawatir são:

Praticadas por grandes comunidades de geração em geração de uma forma que não deixa margem para dúvidas.

Devemos também atentar para este ponto:

Considerar os costumes e tradições dos árabes daquele período como Sunnah e classificá-los como RELIGIÃO é um erro metodológico.

Por exemplo, usar turbante, túnica, deixar a barba crescer, usar miswak, aplicar kohl nos olhos, usar véu, ocultar a esposa dos convidados (segregação entre homens e mulheres), comer a comida que o Profeta gostava, usar os mesmos chinelos que ele usava, carregar um cajado, etc., muitas práticas humanas nos são apresentadas como RELIGIÃO sob o nome de Sunnah.

Se não considerarmos essas como normas religiosas, não haverá problema.

Isto é, se alguém quiser, pode usar um turbante, uma túnica e deixar a barba crescer.

Contanto que não associe isso à religião.

Só Deus, o Senhor de todos os mundos, sabe o que é verdadeiramente correto.


Vedat KAT