Na terminologia corânica, nenhuma palavra é exatamente sinônima de outra. Cada palavra aponta para uma camada diferente da existência e uma dimensão diferente da verdade. Compreender a distinção entre os conceitos de “bashar” e “insan” é fundamental para entender a antropologia e a missão do “califado” no Alcorão. Vamos analisar esses dois conceitos de forma holística, considerando suas raízes etimológicas, diferenças ontológicas e seus usos pretendidos no Alcorão.
1- Análise Etimológica:
A. Bashar (بشر)
No texto não vocalizado, a raiz b-sh-r (بشر) significa a superfície externa, a casca de algo, e especialmente a pele humana.
Ênfase Biológica: No Alcorão, o termo bashar é usado para se referir aos aspectos biológicos, materiais e fisiológicos de uma pessoa. É o nome dado a um organismo “vivo” que come, caminha no mercado, envelhece e morre.
Ponto em comum: Todos os profetas enfatizaram consistentemente que são biologicamente bashar: “Dize: Eu sou apenas um homem como vós…” (Alcorão 18-110). Este é um conceito que impede a deificação dos profetas e confirma a sua semelhança biológica conosco (Isfahani, 2010, p. 165)1.
B. İnsan (إنسان)
Existem duas principais visões sobre a origem desta palavra:
1. Unsiyah (a-n-s): Acostumar-se, formar amizades, adaptar-se. Nesse aspecto, os seres humanos são seres sociais, comunicativos e civilizados.
2. Nisyan (n-s-y): Esquecimento. Nesse aspecto, o homem é um ser que esquece suas promessas, está constantemente precisando de lembretes (Zikr) e é testado por suas fraquezas.
Ênfase Jurídica e Moral: No Alcorão, “insan” refere-se às dimensões da razão, da vontade, da responsabilidade e da prestação de contas. Deus não se dirige ao aspecto “bashar” do homem, mas ao seu aspecto “humano” (espiritual e moral) (Zemahshari, 2009, p. 1250)2.
2- Diferença Ontológica:
Essas duas palavras não são usadas aleatoriamente no Alcorão. Essa diferença nos fala sobre o processo de “tornar-se humano”:
| Conceito | Foco | O propósito de seu uso no Alcorão |
| Bashar | Aparência, biologia, pele, carne. | Para nos lembrar da semelhança física e da mortalidade. |
| Insan | Alma, mente, vontade, caráter, esquecimento. | Para enfatizar a responsabilidade, o compromisso e a maturidade moral. |
O Processo de Criação: Deus diz que criará um bashar a partir do barro (Alcorão 38-71). No entanto, quando Ele sopra nele o Seu espírito, ensina-lhe os nomes e se dirige a ele, ele se torna um “insan” e um “Califa”.
Uso Consciente: Não existe no Alcorão nenhuma expressão que diga “Ó bashar”; a expressão é sempre “Ó insan!” (Yâ eyyuhe’l-İnsân). Isso ocorre porque a expressão não se dirige à estrutura biológica, mas à “essência humana” que possui entendimento (Okuyan, 2015)3.
3- As oportunidades que essa diferença oferece para a compreensão do Alcorão
Distinguir entre essas duas palavras abre três portas importantes para nós:
1. Corrigir a Concepção do Profeta: A objeção dos politeístas aos profetas sempre se baseou em sua “ser bashar”: “São mortais que nos guiarão?” (Alcorão 64-6). Eles se concentravam no aspecto “bashar” (físico) do Profeta e não percebiam seu aspecto “insan” (espiritual, honrado pela revelação). Compreender essa distinção nos permitirá posicionar corretamente os profetas.
2. Perspectiva centrada em valores: O simples fato de um ser “bashar” (criatura biológica), pertencer a uma raça, cor ou gênero específico, não lhe confere superioridade. A superioridade reside na vontade e na conquista moral (piedade) demonstradas no caminho para se tornar um verdadeiro “insan”.
3. Flexibilidade cognitiva: Ao ler o Alcorão, entender se uma ação é uma necessidade “bashar” (comer, beber) ou um dever “insan” (justiça, misericórdia) esclarece o contexto (siyâk) do versículo.
Conclusão
Nasce-se bashar, torna-se um insan.
Segundo a terminologia do Alcorão, nascemos biologicamente como “bashar”; contudo, tornamo-nos “insan” à medida que interagimos com a revelação, a razão e a moralidade. Aquilo diante do qual os anjos se prostraram, por ordem de Deus, não era a forma “bashar” de barro, mas sim a essência “insan” que carrega os atributos de Deus (conhecimento) e na qual foi insuflado um espírito. Evitar o uso indiscriminado dessas palavras do Alcorão é de vital importância para preservar a pureza (sinceridade) dos conceitos revelados.
Vedat Kat
- Isfahani, R. (2010). Mufradat: Dicionário de Conceitos do Alcorão (traduzido por M. Okuyan). Publicações Pinar. ↩︎
- Zemahshari, C. (2009). al-Kashshaf: Comentário do Alcorão. Beirute: Dar al-Kutub al-Ilmiyya. ↩︎
- Okuyan, M. (2015). Os conceitos de anjos e gênios no Sagrado Alcorão. Istambul: Editora Pınar. ↩︎
