A Contemplação no Alcorão

​Apenas usar a razão não basta! Quem neste mundo usa sua razão mais do que um ladrão, um fraudador ou o diabo? No Alcorão, os descrentes não são censurados por não usarem a razão, mas por não raciocinarem, isto é, por não estabelecerem as conexões corretas.

​Como quase todos os conceitos alcorânicos, o conceito de “contemplação” também foi esvaziado e adulterado. Após cada frase ambígua como “O Alcorão ordena o uso da razão”, faz-se referência à contemplação. Digamos de imediato: o Alcorão não ordena usar a razão; nos versículos referidas, não se ordena “usar a razão”, mas sim “raciocinar”. Raciocinar não é meramente usar a razão, mas alcançar o resultado correto estabelecendo as conexões corretas entre eventos ou dados, ou empenhar-se nessa busca. Isso, por sua vez, só é possível possuindo a informação correta e aplicando os princípios do raciocínio inato.

​Voltemos ao nosso tema principal: o que é a contemplação?

​A contemplação é o esforço de processar a informação e extrair uma conclusão com base num critério. O critério, a informação e o resultado podem ser corretos ou errados. Se apenas um deles — o critério ou a informação — estiver errado, o resultado será errado. Mesmo que ambos estejam corretos, o resultado ainda poderá ser incorreto devido a erros no processo. Portanto, a contemplação é uma tarefa difícil; não é uma conversa de café num encontro de amigos, nem consiste em ler um versículo e preencher o seu espaço com interpretações pessoais.

​No Alcorão, são dados exemplos notáveis de contemplação correta e errada. Por exemplo, nos versículos 18 e seguintes do capítulo Al-Muddaththir, nosso Senhor censura severamente alguém que contempla:

​”Pois ele pensou e meditou. Que seja amaldiçoado, como meditou! Novamente, que seja amaldiçoado, como meditou! Depois olhou, franziu o cenho e fez cara feia. Então voltou as costas, encheu-se de soberba e disse: ‘Isto não é senão magia fascinante e conhecida; sim, isto não passa de palavra de um mortal.’”

Alcorão 74-18 > 25

​Essa pessoa, quando lhe são transmitidas as aias de Deus, avalia as aias a seu modo e chega a uma conclusão: “Isto são apenas palavras de um mortal”, diz ela. Essa pessoa avalia as aias que lhe são lidas com base num critério. Informa-se que o homem mencionado na aia tanto “determinou um critério” quanto “contemplou”. Determinar um critério significa usar uma medida. A contemplação expressa o ato de processar a informação de acordo com o critério considerado e chegar a uma conclusão. Com base num critério por ele próprio estabelecido, ele chega à conclusão de que as aias não são a palavra de Deus, mas sim a palavra de um mortal. Nosso Senhor critica não a contemplação desse homem, mas o seu critério. “Que seja amaldiçoado, como determina o critério!”, ou seja, “que critério ele usa!”, diz Ele. Como o critério do homem está errado, a contemplação produz um resultado errado.

​Os seres humanos não podem determinar o critério para saber se as frases transmitidas são fruto da revelação. As pessoas podem avaliar um texto sob diversos aspectos, como gramática, literatura, emoção e empolgação, e considerá-lo bem-sucedido ou fracassado. No entanto, para a determinação de se um texto é ou não uma revelação, nosso Senhor é quem fornece o critério. O próprio Alcorão nos informa que a contemplação realizada com esse critério produzirá resultados.

​De fato, ao lermos as aias 43 e 44 da sura An-Nahl, nosso Senhor nos explica como a contemplação feita segundo um critério correto produzirá um resultado correto:

Antes de ti não enviamos senão homens, que inspiramos. Perguntai-o, pois, aos adeptos da Mensagem, se o ignorais!
(Enviamo-los) com as evidências e os Salmos. E a ti revelamos a Mensagem, para que elucides os humanos, a respeito do que foi revelado, para que meditem.

Alcorão 16-43 > 44

​Como indicam os exégetas, a aia 43 é uma resposta à objeção dos idólatras de Meca, que objetavam ao envio de um ser humano em vez de um anjo como mensageiro. Na aia, informa-se aos idólatras de Meca que a objeção apresentada não é válida, que todos os mensageiros foram enviados dentre os homens com evidências claras e escrituras e que, se não possuem conhecimento sobre esse assunto, recomenda-se que sanem suas dúvidas perguntando aos adeptos da recordação entre eles. A aia 44 está ligada à aia 43 tanto na forma quanto no significado. A expressão “بِالْبَيِّنَاتِ وَالزُّبُرِ = com evidências claras e escrituras” no início da aia conecta-se ao verbo “أَرْسَلْنَا = enviamos” na aia 43. A relação de significado entre as duas aias decorre da unidade de tema. A saber: na aia 43 apresenta-se uma prova aos idólatras de Meca, e na aia 44 aos Adeptos do Livro, de que Muhammad (s.a.w.) é o Mensageiro de Deus e que o que lhe foi revelado é o Livro de Deus. Na aia 44, menciona-se que a “Recordação”, isto é, o Alcorão, foi dada ao Mensageiro de Deus. É notável que a palavra “recordação” apareça em ambas as aias. “Recordação” é o atributo e nome comum dos livros divinos. Provavelmente por essa razão, para chamar a atenção daqueles dirigidos como “adeptos da recordação” na aia 43 para um ponto comum, o Alcorão revelado ao Mensageiro de Deus na aia 44 foi denominado “recordação”.

​Na aia 44 da sura An-Nahl, as expressões “لِلنَّاسِ = para os homens” e “إِلَيْهِمْ = a eles” referem-se às mesmas pessoas. Trata-se das pessoas mencionadas na aia anterior como adeptos da recordação (أَهْلَ الذِّكْرِ). A recordação revelada ao Mensageiro de Deus, isto é, o Alcorão, confirma os livros anteriores. Assim, os Adeptos do Livro poderão comparar o Alcorão com os livros que lhes foram revelados anteriormente e compreender que Muhammad (s.a.w.) é o mensageiro de Deus. É isso o que se quer dizer com a expressão “وَلَعَلَّهُمْ يَتَفَكَّرُونَ = talvez assim contemplem” no final da aia. De fato, assim como houve quem visse a verdade e cresse no Mensageiro de Deus, também houve quem fingisse não ver.

​Em conclusão, quando considerado no âmbito da aia 44, o objetivo da revelação da Recordação, isto é, do Alcorão, ao Mensageiro de Deus é a elucidação, por parte do Mensageiro de Deus, do que consta nos livros que estão nas mãos dos Adeptos do Livro. Em muitas aias menciona-se que o Alcorão confirma o que está nos livros anteriores, esclarece (tebyin) os pontos em que divergiam e o que ocultavam. Ou seja, o Mensageiro de Deus foi enviado para confirmar o que está nos livros dos Adeptos do Livro, esclarecer certos pontos em que divergiam e ocultavam no Livro, e revogar determinados preceitos por algo melhor. Para os Adeptos do Livro que hesitam em crer no Mensageiro de Deus ou que procuram desculpas para não crer pedindo um milagre, isso será uma prova suficiente. Dessa forma, os Adeptos do Livro tanto compararão o Alcorão com o Livro que possuem e verão que o Alcorão confirma os seus livros, quanto o Alcorão trará clareza a alguns assuntos que eles ocultavam e sobre os quais divergiam. Por outro lado, a leitura dessas aias por alguém que eles conheciam anteriormente e que não possuía conhecimento detalhado sobre o livro e questões de fé, nem tinha a expectativa de que lhe fosse revelado um livro, significará um milagre para eles, e assim raciocinarão e crerão nele. O Mensageiro de Deus realiza tudo isso contra os Adeptos do Livro por meio do Alcorão.

​Como se pode ver, a contemplação realizada com um critério correto demonstra a legitimidade do profeta e do livro.

​Demos outro exemplo:

Dize-lhes: Exorto-vos a uma só coisa: que vos consagreis a Deus, em pares ou individualmente; e refleti. Vosso companheiro não é um energúmeno. Ele não é senão vosso admoestador, que vos adverte, face a um terrível castigo.

Alcorão 34-46

Não refletem no fato de que seu companheiro ² não padece de demência alguma? Que não é mais do que um elucidativo admoestador?

Alcorão 7-184

​Em ambas as aias aparece a palavra contemplação. As aias mostram claramente que aqueles que se empenham em processar as informações corretas de acordo com um critério correto e alcançar um resultado chegarão à conclusão de que Muhammad (que a paz esteja com ele) não está sob a influência de demônios e é um advertidor manifesto que afirma que essas palavras vêm de Deus.

​Ao mesmo tempo, essas duas últimas aias nos mostram que “os critérios que definimos ao contemplar podem fazer com que um grupo diga ‘ele não pode estar sob a influência de demônios, esta é a palavra de Deus’, enquanto fazem com que outro grupo diga ‘isto não passa de palavra de um mortal’.”

​Agora pode surgir a seguinte pergunta: “O que fará uma pessoa se não tiver um livro em mãos e não souber qual deve ser o critério?” A aia seguinte já fornece esse critério:

​Não reparam no reino dos céus e da terra e em tudo quando Deus criou e em que, quiçá, seu fim se aproxima? E que mensagem, depois desta (Alcorão), crerão?

Alcorão 7-185

​A contemplação também pode ser feita com as aias da criação; contudo, para aqueles que se recusam a ver a harmonia entre as aias reveladas e as aias criadas, nada há a fazer. A aia seguinte revela a situação daquele que estabelece o seu critério sobre a teimosia e a negação:

Aqueles a quem Deus desviar (por tal merecerem) ninguém poderá encaminhar, porque Ele os abandonará, vacilantes, em sua transgressão.

Alcorão 7-186

​Resumindo, a contemplação que Deus requer de nós é o esforço de avaliar a informação correta com um critério correto e alcançar o resultado correto. Contudo, cabe ressaltar que nem sempre é possível alcançar o resultado correto com um critério correto e informação correta. Podemos ter negligenciado algumas aias relacionadas ao assunto ou cometido erros de lógica devido a fraquezas humanas. Para tais situações, o fiel deve buscar continuamente a ajuda de seu Senhor e preferir trabalhos coletivos em vez de trabalhar isoladamente.